Evangelho Comentado por Pe. Carlo Battistoni - Centro Bíblico Regnum Dei

 II Domingo de Quaresma


24 de fevereiro de 2013



   

«Uns oito dias depois dessas palavras, Jesus subiu à montanha para rezar e levou consigo Pedro, João e Tiago. E enquanto rezava, seu semblante mudou de aspecto e sua roupa estava branca e fulgurante. Eis que dois homens se puseram a falar com ele: Moisés e Elias; aparecendo envolvidos de glória, falavam de sua partida que ele ia realizar em Jerusalém. Pedro e os seus companheiros estavam caindo de sono mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois personagens que estavam de pé junto a ele. E, quando estes já iam desaparecendo, Pedro disse a Jesus: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e a terceira para Elias”. Mas não sabia o que estava dizendo. Enquanto ele falava isso, apareceu uma nuvem que os envolveu na sua sombra; e, quando entraram na nuvem, os discípulos ficaram cheios de medo. Então se ouviu uma voz da nuvem que dizia: “Este é o meu Filho, o meu eleito. Ouvi-o”. Apenas cessou aquela voz, Jesus estava sozinho. Os discípulos guardaram silêncio, não contando, naqueles dias, nada do que tinham visto.» (Lc. 9,28-36)

 


A liturgia quaresmal procede seu caminho introduzindo-nos sempre mais no mistério cristão, no ápice da promessa de Deus. Contemplar o que Deus fez é contemplar o que Ele faz. Eterna é a história de Deus escrita nos corações, nos eventos da nossa história particular, nos fatos da história da humanidade.

 

O evento narrado no Evangelho de hoje associa o dia do batismo de Jesus no Jordão, com a antecipação da Páscoa, dia da manifestação plena do dom que Deus preparou par ao homem. O evento narrado evidencia também que la ligação essencial entre o nosso Batismo celebrado um determinado dia e o Batismo existencial, vivido ao longo da existência quotidiana, através do qual a glória de ser filho de Deus poderes plandecer na vida do discípulo para o bem das pessoas em busca de um sentido para a própria existência.

 

Toda a nossa vida, de modo especial revivida e celebrada nos momentos fortes da liturgia como a quaresma, se manifesta como a expressão de um longo processo pelo qual aprendemos o que significa ser “filho de Deus”, aprendemos a viver o que já somos.É o que dirá a “voz” que interpreta para os discípulos o evento da Transfiguração de Jesus: «Este é o meu filho, o eleito, escutai-O!». Com a capacidade de “ouvir” -inata no homem começa toda a história da salvação, com a capacidade de ouvir ela pode chegar à sua realização. A transfiguração de Jesus diante dos discípulos lhes servirá como garantia antecipada de que a Palavra pronunciada por Deus em Jesus Cristo produzirá, sem dúvida alguma, o seu efeito, exatamente como era a convicção de Isaías: «... Assim será apalavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas realizará aquilo para a qual a designei» (Is.55,11). Sim, é disso que o Profeta tinha certeza; mas quanto mais verdadeiras são agora as suas profecias uma vez que a palavra de Deus não foi apenas pronunciada mas que se fez viva, visível, operante! ... Agora que a Palavra é Jesus que vive, se faz conhecer,age!

 

Segundo os Evangelistas, embora se trate de um dom oferecido a todos, parece que a “filiação divina”, meta da ação de Deus para com o homem, não seja um “dado de fato”, um “direito adquirido” pelo simples fato que Deus o oferece indistintamente. Parece tratar-se de um processo pelo qual o discípulo é conduzido pela ação de Deus a «tornar se» (como diz o Evangelho de João) existencialmente aquilo que já é essencialmente.Tanto o Evangelho de João, quanto o de Marcos vê em a filiação como um movimento,como algo que dinamicamente acontece à medida em que o discípulo “mergulha” na realidade que Jesus oferece. Não se trata de um rótulo que define um grupo de pessoas distinguindo-as de outros.

 

É nessa lógica, na dinâmica da filiação divina “já-e-não-ainda”, que se encaixa o texto de hoje. É uma etapa fundamental da vida de Jesus e da sua relação com os discípulos mais estritos, Pedro, Tiago, João. Seguindo essa lógica, a transfiguração de Jesus antecipou aos três discípulos não apenas aquilo que o Senhor é, mas também aquilo que já existe no discípulo que sabe associar-se ao Senhor; ou seja, uma glória semelhante à Dele; glória que progressivamente vai se manifestando até desabrochar plenamente, se o discípulo se deixar envolver pela mesma nuvem que envolveu Jesus. É o “novo Êxodo” do qual Moisés é sinal.

Mas, vamos tentar uma leitura um pouco mais próxima.

 

A gratuidade é apresentada imediatamente no inicio da história de Deus com o homem; é a marca característica dessa relação. É uma gratuidade responsável e participativa. Ele dá ao homem a possibilidade de tornar-se “filho” mas Ele não constrói a sua historia com o homem sem o homem. Poucas linhas antes do nosso trecho Jesus questionou várias vezes os discípulos sobre o que pensassem Dele, sobre o que estaria inclinado a fazer, se teriam ou não a disposição para carregar uma cruz, aliás, a própria cruz e não outra... Mas as respostas eram vagas, genéricas. No entanto, a viagem de Jesus rumo a Jerusalém continuava e não podia parar esperando que os discípulos entendessem ou dessem uma resposta. Deus não depende da nossa resposta para realizar o seu projeto, mas a nossa resposta pode associar-nos ao Seu projeto, tornar-nos partícipes, sujeitos ativos. Deus vê cada um de nós como participe deste grandioso projeto de felicidade; Abrão, por exemplo, é também figura de cada um de nós, e como nós é convidado a deixar seu pequeno mundo para aventurar-se num mundo que progressivamente se revelaria ao seu olhar, o mundo da confiança na ação de Deus.

 

Assim sendo, seja que os discípulos entendessem ou não, Jesus continuava a sua viagem rumo à Cidade Santa.

 

O Evangelista nos deu uma indicação importante: o fato ocorreu «Uns oito dias depois dessas palavras»; quais palavras? Porque “oito dias depois”? Certamente não se trata de uma indicação cronológica, é claramente um dado teológico e espiritual. As últimas palavras de Jesus que o Evangelho relata, se referiam ao escândalo da cruz, à lógica do insucesso humano, à capacidade de seguir até o fim, entendendo ou não o curso dos fatos. O único que deu uma resposta, Pedro, não parecia muito condizente com uma lógica dessas. Beh, afinal, quem de nós aceitaria agradavelmente o insucesso e a perda? Para nós o resultado é o metro de avaliação dos nossos atos mas, porque para Deus não é sempre assim? Qual é o “metro” Dele? Porque num caminho que necessariamente levará à felicidade devem existir dor e lágrimas?

 

A Transfiguração não é uma resposta a essas perguntas, mas o que sabemos que ela está “dentro” desse caminho, e não acontece fora dele!

 

Também a citação do “oitavo dia” nos dá uma indicação importante percebida pelos discípulos e narrada no Evangelho. Ela nos remete diretamente ao segundo livro dos Macabeus cap. 2. Ali encontramos vários dos elementos presentes na Transfiguração de Jesus: uma montanha, a “Lei” escondida, a glória, a citação de Moisés, a dimensão sacrifical... Todos esses elementos giram em torno de uma idéia: Jahvé está reunindo em torno de si um novo povo, um povo disposto a ter a “Lei” como centro da sua vida, um “resto do povo”, um “resto” disposto a consagrar-se.

 

A tal atitude positiva de abertura, Jahvé deveria corresponder dando um sinal:enviando uma nuvem que envolveria o seu novo povo, lugar da presença viva da Sua Palavra, assim como o era a arca ad Aliança no deserto (Ex. 40, 34ss). Sim, o novo povo,bem disposto, “resto” entre aqueles que conseguiram permanecer fieis não obstante as pressões da cultura adversa daquele momento; eles seriam o novo povo de Jahvé. Nessa ótica se entende o significado que Jesus deu à Transfiguração. Não foi um gesto espetacular nem demonstrativo: foi um gesto significativo. Naquele momento se antecipava a resposta que Deus daria mais tarde ao próprio Filho, à sua colheita, ao fruto da Palavra por Ele pronunciada que estava ali, na pessoa de Pedro, João, Tiago, o novo povo reunido por Jesus, o “resto”, disposto a consagrar a sua vida ao Senhor.

 

No nosso trecho do Evangelho, a transfiguração é apresentada como obra do Pai;não encontramos a expressão da redação de Marcos: “se transfigurou”, mas sim: «o seu rosto mudou de aspecto» e isso aconteceu enquanto Ele estava em profunda intimidade com o Pai. Eis então indicado um caminho para a nossa fé: a profunda intimidade com Deus sedá não apenas enquanto “sentimos” algo prazeroso que nos atrai, mas quando decidimos,sim, quando decidimos estar no lugar que Deus nos confiou, permanecer até às últimas conseqüências, assim como se faz com a pessoa amada. De fato alguns elementos da nossa narração, como o “sono” dos discípulos; a solidão de Jesus diante do Pai (apenas num segundo momento são apresentados Moisés e Elias), a proximidade da paixão...tudo nos recorda o drama do Getsêmani, do cálice aceito apenas por amor e decisão de fidelidade.

 

Quando um discípulo acolhe e escolhe a via que Jesus traçou ele também é envolvido pela mesma “nuvem” que cobria a Arca da Aliança, que indicava o “lugar da presença”, que marcava o “ponto de encontro” entre Deus e o homem. Ora, é bem isso que foi oferecido aos três Apóstolos; de ser, analogamente a Jesus, lugar da Presença e ponto de encontro. Algum tempo depois disso, com a Pentecostes, irá se realizar plenamente aquilo que Jesus antecipou como oferta à Igreja de Pedro, Tiago e João. Ela seria o lugar da Presença do Ressuscitado, nova “Lei” viva e eterna e ponto de encontro,sacerdócio, entre Deus e o homem.

 

Pedro, Tiago, João foram convidados a fazer experiência dessa nova realidade,pois eles seriam aquela Igreja à qual Jesus confiaria a missão de anunciar o mistério da filiação divina. De fato, os sinais da voz, da nuvem, são os mesmos que se encontram no batismo de Jesus; batismo que agora, Pedro, Tiago e João, deveriam oferecer ao mundo inteiro, a homens que, ainda hoje, estão sem esperança, descrentes da vida, sozinhos e desconsiderados. Batismo que indica e realiza uma nova vida, a fim de que eles também sintam que Alguém os quer como filhos, filhos muito amados. Recordar o nosso batismo,vivido na família de Jesus nos dá muito animo e coragem nos momentos difíceis.

 

Uma coisa fica muito clara no sinal que Jesus quis dar com esse evento: há uma profunda indissolubilidade entre paixão, glória e filiação divina.Ser filho é algo que se aprende, assim como se aprende a ser pai.

 

Ser filho é acreditar de ser amado apesar de tudo, acima dos próprios problemas e limites; pois bem,tudo isso se aprende durante o caminho, não antes! Viver como filho é descobrir e saber de ser acompanhado com um olhar discreto e atento em cada passo dado. É confiar que o resultado de nossa vida nunca será um desastre, uma derrota, um percurso tedioso sem outro desfecho que o vazio. Ser filho é sentir o que o pai sente e, assim como um filho é o reflexo daquilo que seu pai é, em cada discípulo autêntico será possível ver o reflexo, o rosto brilhante, a veste cândida, a vida transfigurada: o homem novo.

 

Sobre todos vós que tendes disposição humilde em ouvir, invoco a benção de Arão:«O Senhor te abençoe e te guarde, faça resplandecer seu rosto sobre ti» (Nm. 6,25).

 

Pe. Carlo

centrobiblicord@yahoo.com.br


Postado em: 21/02/2013 as 09:21:31





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