Evangelho Comentado por Pe. Carlo Battistoni - Centro Bíblico Regnum Dei

 V DOMINGO DO TEMPO COMUM


06 de fevereiro de 2011



   

«Vós sois o sal da terra. Mas se acaso o sal vier a perder o sabor, com que poderá recuperá-lo? Não serve mais para nada. É jogado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não pode ficar escondida. Nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, mas no seu próprio lugar, de onde brilha para todos os que estão na casa. Assim brilhe vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.» (Mt. 5,13-16)

 

 

A palavra que Jesus hoje nos dirige faz parte de um conjunto literário do evangelista Mateus que recolhe, como num único grande discurso de Jesus aos seus, os valores que caracterizam a vida de um discípulo. Não é uma palavra dirigida a todos, indistintamente, mas a seus “discípulos”. De fato Jesus tem sempre uma maneira diferenciada de se comunicar com os discípulos e a multidão. Esta, na maioria dos casos, é composta por gente que segue Jesus por curiosidade ou por necessidades imediatas particulares. Bem diferente é o grupo daqueles que os Evangelhos chamam de “discípulos” o que significa: “os que estão dispostos a aprender”. Relações diferentes, logo, porque o grau de envolvimento com Jesus é diferente. Uma coisa é quando buscamos Jesus para resolver algum problema imediato que nos aflige e que sentimos superior às nossas forças, como em ocasião de uma grande tristeza ou dificuldade imediata que sobrevenha; esta já é uma ótima atitude, uma atitude típica de quem aprendeu a recorrer a Deus e renunciou à presunçosa soberba própria de não pede ajuda. Por outro existe um amadurecimento e estreitamento das relações com Deus; o indício de que a nossa relação com Ele é madura se mostra com um pequeno sinal: quando decidimos de “aprender” um estilo de vida nova que possa trazer autenticas mudanças em nossa vida e no ambiente que nos cerca. Ser discípulo é, acima de tudo, um ato que mostra a maturidade do nosso relacionamento com Jesus. Então, é a estas pessoas que Jesus se dirige com maior atenção e cuidado porque o discipulado é uma atitude de fidelidade no amor, que expressa a humildade de quem está disposto a se deixar moldar pela ação delicada e paciente de Jesus e do Espírito, o mesmo que «conduzia» sempre o próprio Senhor. Assim como Ele aprendia dia após dia (é isto que caracteriza a declaração do Batismo de Jesus e da Transfiguração) a reconhecer e seguir a vontade do Pai através do movimento do Espírito, assim também o discípulo escolhe este mesmo etilo de vida: deixar-se conduzir, na unidade, para o bem das pessoas. O discipulado é um caminho que retrata a comunhão de vida e de ação trinitária e a faz presente no meio dos homens. Por isso, ser discípulo, é mais do que apenas ser “sequazes” de uma ideologia ou de um mito.

 

            Jesus usa duas imagens com as quais tenta explicar aos discípulos qual é o efeito gerado quando alguém decide segui-lo estavelmente; são as imagens do sal e da luz, cada uma com significados diferentes. Jesus não está dizendo “o que alguém deve fazer” para ser discípulo, mas sim o contrário: a decisão de colocar Jesus no centro de própria vida provoca algumas conseqüências, que a luz e o sal podem perfeitamente expressar com o seu poder simbólico. Tentaremos decifrar, por quanto possível, o que Jesus queria indicar usando a imagem do sal.  

 

Acostumados na sociedade da abundância onde o “ter” é o obvio, é difícil para nós sentir o que significava na antiguidade ter sal ou não. Obter um quilo de sal demorava dias e dias de evaporação de água marinha, o sal mineral era pouco conhecido. Assim sendo, o sal era considerado algo precioso, objeto e elemento de permuta; em alguns casos (no Egito e entre os Sumérios) era usado como verdadeira moeda. O pagamento de um trabalho ou serviço efetuado era remunerado normalmente com dinheiro, todavia, no caso se quisesse retribuir com uma gratificação adicional, um “a mais” do que o justo, era dada uma porção de sal (fato pelo qual usamos a palavra “salário”, que era uma porção de sal dada aos soldados romanos que se sobressaiam). Ter sal em casa significava ser privilegiado, era sinal de abundância e na crença popular era tido como um auspício benéfico por parte das divindades. O uso era dosado e não era quotidiano, reservado apenas para momentos especiais.

 

Tendo estes elementos como pressupostos, creio que possamos aproximar-nos melhor dos sentimentos de Jesus. O discípulo, para Jesus, é o “dom a mais” que Ele dá para os homens, o discípulo é uma nova palavra que Deus dirige ao mundo, além da palavra que Ele sempre diz através da sua criação. Deus deu ao homem um mundo inteiro, coisas maravilhosas para que ele possa realizar-se plenamente, para ser feliz assim como Ele sempre desejou. O jardim do mundo, as relações autênticas, a condição de criar e cultivar esta riqueza, a amizade de Deus demonstrada e ratificada pela sua palavra, são uma série de ofertas gratuitas. Além de tudo isto, que por si próprio já é o suficiente para que todos os homens, de todas as culturas, possam descobrir o caminho que leva a Ele (caminho que a antropologia chama “religiosidade”); além disso, do “soldo”, Deus dá ao mundo o seu “sal”, os discípulos de Seu Filho: num ulterior ato de carinho. São os que amam a Jesus de fato, que estão respeitosamente dispostos a ouvir; pessoas que antepõem a lógica d’ Ele à própria maneira de ver. Neles há um amor autêntico que se transforma em força e entusiasmo para a vida; um “brilho novo” ilumina seus olhares porque vêem quanto nem para todos é fácil ver. Isto são vocês, cada um de vocês que têm o privilégio e a honra de ser considerado “discípulo”. Um dom de Deus para o mundo.

 

Se, por um lado, Jesus revela o significado de ser discípulo, por outro parece ainda convidar-nos para partilhar com o Pai o esforço de derrotar a tristeza que ainda assola o coração do homem. O discípulo é um encontro vivo: Jesus que escolhe e a pessoa que se deixa escolher, sem questionar, sem se avaliar, sem julgar sobre o que foi a vontade de Deus para ele. Alguém que estiver assim disposto, tornar-se-á “coisa preciosa”, para todos, como o sal, capaz de dar um sabor novo à existência de outros. O sal é elemento primo, que não pode ser “salgado” mas tem o poder de modificar, de dar sabor novo à vida, às pessoas que não encontram sabor naquilo que fazem repetidamente, todos os dias, com o medo de se perguntar: “por quê”? Encontrar o “sal” na própria vida permite vive-la de modo diferente. Não se trata tanto de uma modifica daquilo que fazemos, mas da maneira de fazer as mesmas coisas de sempre. Assim, onde havia uma vida insossa, encontrar um “discípulo” pode trazer de novo o “gosto” da vida; pode evitar o drama da busca insaciável de sensações novas, de estímulos excêntricos que apenas servem para cobrir uma recôndita insatisfação que as pessoas carregam dentro de si.

 

Qual grande honra saber que qualquer pessoa esteja disposta a escutar, a envolver-se, é considerada por Deus como “o seu dom precioso”, que Ele pode oferecer ao homem que está sofrendo porque não encontra sentido naquilo que a vida o levou a viver! E, além disto, além de saber que somos algo precioso para Deus, quão grande é também a alegria de poder restituir o sorriso aos lábios de alguém que não sorria há muito tempo! Isto não tem preço.

 

Jesus parece fazer um sutil convite a participar do esforço de Deus em mostrar ao mundo que o amor é maior do que o egoísmo, que a esperança é viva, que o homem é maior do que suas inseguranças que geram dor. O discípulo não fala disso, apenas carrega dentro de si esta realidade nova, como o sal carrega dentro de si o poder de dar sabor novo às coisas; quem coloca o sal é outro, é o Senhor, que precisa “salgar” a vida insossa, sem sentido e que traz desespero a muitos. É o mesmo convite que hoje nos repete, um convite que sempre encontrará homens e mulheres generosos dispostos a superar os limites de seu horizonte e dizer: “sim, Senhor, faça de mim um Teu discípulo para que a minha vida manifeste o Tua bondade, para que a minha existência seja missionária além das palavras e das coisas que eu possa fazer”.

 

Contudo, Jesus alerta sobre um perigo: o sal pode perder o seu sabor.  O sabor e o poder de dar sabor, nos advêm pela atitude de “ser discípulo”, isto é, não se trata de um privilégio adquirido definitivamente, mas de algo que caminha conosco e... pode parar quando paramos de caminhar. Isto implica na capacidade de se deixar transformar pela união com o Senhor feita de oração, caridade, contemplação, superamento do próprio modo de ver que acontece somente se mantivermos viva a referência à pessoa de Jesus. Ora, se o “sal” pode enriquecer a vida com um significado diferente, pode também trazer consigo a morte, a morte causada por uma decepção profunda. Simbolicamente, durante uma guerra, quando era destruída uma cidade, se espalhava sal sobre as ruínas como para dizer que por muito tempo a vida seria impossível ou, pelo menos ressurgiria com muita dificuldade, como as plantas numa terra salgada.

 

È o alerta de Jesus, porque o “discípulo”, uma vez que decide em favor de Jesus e tendo Ele como referência, não pode mais pensar de agir “somente” em seu próprio nome, não pode mais se arrogar o direito de “fazer o que quiser” porque é seu direito. Não! A partir de quando e na intensidade com a qual nos entregamos a Jesus as pessoas desejam ver Ele em nós, acima de nós mesmos. A partir do momento em que estabelecemos uma relação profunda com Jesus, quem vê a nós se pergunta sobre Jesus; quem espera encontrar o sabor que Dele vem, pode até correr o risco de não encontrar nada mais do que o nosso “eu”... e isto pode causar mais sofrimento e decepção. È uma séria responsabilidade que gera conseqüências, positivas ou negativas, que o percebamos ou não.

 

Cultivar e viver na escuta da palavra, na oração calma, na atenção aos homens que Deus tanto ama, com certeza fará aflorar a melhor parte de nós mesmos e mais bonito será o dom que o Pai poderá ainda oferecer à humanidade que sofre.  

 

 

Pe. Carlo


Postado em: 03/02/2011 as 11:30:43





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