Evangelho Comentado por Pe. Carlo Battistoni - Centro Bíblico Regnum Dei

 V Domingo de Quaresma


10 de abril de 2011



   

            «As irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: "Senhor, aquele que amas está doente". Ouvindo isto, Jesus disse: "Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela". Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. Então, disse aos discípulos: "Vamos de novo à Judéia". Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: "Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá". Respondeu-lhe Jesus: "Teu irmão ressuscitará". Disse Marta: "Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia". Então Jesus disse: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?". Respondeu ela: "Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo". Quando Jesus a viu chorar e viu chorar também os Judeus ficou profundamente comovido e perguntou: "Onde o colocastes?". Responderam: "Vem ver, Senhor". E Jesus chorou. Então os judeus disseram: "Vede como ele o amava!". Alguns deles, porém, diziam: "Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?". De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. Disse Jesus: "Tirai a pedra!". Marta, a irmã do morto, interveio: "Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias". Jesus lhe respondeu: "Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?". Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: "Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste". Tendo dito isso, exclamou com voz forte: "Lázaro, vem para fora!". O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: "Desatai-o e deixai-o caminhar!". Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele.» (Jo. 11,3-7.17.20-27.33b-45).

 

Percorremos o itinerário da vida cristã resumido nestes cinco domingos de Quaresma. No primeiro refletimos sobre a “tentação” e com ela sobre a liberdade das nossas opções; no segundo, com a Transfiguração de Jesus, meditamos sobre a beleza que o homem carrega em si e que se manifesta quando se deixa envolver pela mesma “nuvem” que envolveu Jesus; no terceiro, o encontro com a Samaritana nos apresenta Jesus como fonte de vida para quem se “deixa encontrar”; no quarto domingo através do cego de nascença vemos um pouco de cada um de nós quando se deixa iluminar por Jesus e obedece ao seu pedido de ir lavar-se nas águas do Batismo. O episódio de hoje representa o ponto alto da revelação de Jesus. É um episódio de impacto tão forte que desencadeou definitivamente a decisão dos judeus de suprimir Jesus e o próprio Lázaro que Ele havia ressuscitado dos mortos: «naquele dia decretaram de matar Jesus... e também Lázaro» (Jo.11,53;12,10).  

 

Para entender um pouco mais aquilo que acabamos de ler, precisamos recorrer a outras partes deste trecho que por necessidade prática foram omissos, mas que levaremos em consideração.

 

Jesus estava na Peréia, uma região além do Jordão onde havia se refugiado quando os Judeus o procuravam para matá-lo (Jo. 10,39). Foi ali que chegou a notícia de que o seu amigo, Lázaro, estava doente; se tratava de um acalorado apelo das duas irmãs Marta e Maria as quais esperavam que Jesus fizesse algo para o irmão delas. Era um apelo Àquele que havia feito tantos milagres e que, a maior razão, poderia curar também o seu amigo. Seria suficiente não mais que um dia de viagem para chegar a Betânia (Betânia significa “casa de aflição”). Qualquer um teria se posto imediatamente em viagem, ainda mais porque quem pedia isto ao Senhor era (segundo João) a mesma pessoa que havia ungido os pés Dele com perfume. Mas Jesus respondeu de modo inusitado, inconcebível... permaneceu mais dois dias no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido, como se estivesse insensível ao apelo das duas irmãs. Respondeu apenas do mesmo modo que respondeu aos apóstolos quando lhe perguntaram o que o cego de nascença havia feito de mal para merecer aquilo. Assim como para o cego a sua condição não era um castigo nem seria definitiva, do mesmo modo também a morte de Lázaro não seria uma condição definitiva. Não é difícil imaginar o desconcertamento dos discípulos. Não era a primeira vez que Jesus reagia deste modo e isto provocava inúmeros questionamentos neles nos próprios discípulos. Será que Ele se esqueceu da amizade? Será que o medo de voltar para a Judéia é mais forte do que o sentimento de gratidão a Marta, Maria e Lázaro que sempre O acolhiam em sua casa? Porque o Senhor, tão bondoso para com todos, atento às necessidades das pessoas antes mesmo que elas as expressassem, desta vez parecia insensível?

 

Jesus decidiu viajar apenas ao terceiro dia.

 

Não creio que os questionamentos dos Apóstolos sejam tão diferentes dos nossos quando nos dirigimos a Deus esperando que Ele faça alguma coisa e... Ele deixa esperar... esperar, sem que saibamos se e quando fará alguma coisa para a nossa necessidade! Foram dois dias que pareciam eternos, como os dois dias antes da Ressurreição do domingo de Páscoa. São os dois dias da nossa inteira vida, na qual a certeza interior de que Deus não pode não fazer nada, que Ele é fiel e não deixa ninguém que confia Nele sem resposta, se confunde com o profundo silêncio que cava no mais íntimo da nossa vida. Um silencio que nos questiona quanto à consistência da nossa relação com Ele, nos questiona sobre o tempo que sabemos perseverar confiando no Seu amor. O Silêncio de Deus é a palavra Dele sobre nós mesmos para podermos tocar o mais intimo do nosso ser, da nossa confiança. O silêncio e a espera são como o filtro com o qual o nosso amor a Deus recebe o último toque de perfeição. Quantas vezes ressoou em nossas almas a angustiosa pergunta do salmista: «Será que Deus esqueceu a sua bondade, a sua promessa, afinal, terá falhado?» (Sal.77,8s)! Ao terceiro dia, quando os discípulos haviam-se conformado que Jesus não iria para Betânia, Ele os surpreendia novamente, decidindo colocar-se a caminho mesmo entre os protestos de Tomé: «Nós também vamos morrer!» (Jo. 11,16). A decisão de ir para Betânia era como “cavar a própria fossa”.

 

O pior dos questionamentos surgiria mais tarde ainda no coração de todos, quando, chegando a Betânia, o Senhor foi informado de que Lázaro havia falecido há quatro dias, ou seja, justamente no dia em que Ele havia decidido de não viajar...! Como interpretar a reação de Marta:«Se tivesse estado aqui meu irmão não teria morrido!»? Com certeza uma série de sentimentos contrastantes agitavam-se dentro dela: por um lado a confiança em Jesus não estava sufocada, mas por outro lado o questionamento sobre Seu modo de agir a deixava sem palavras, desnorteada. Marta não conseguia aceitar que Jesus não tivesse impedido a morte do irmão. Marta não podia aceitar a morte porque esta não faz parte do homem, não cabia no seu entendimento. O homem é feito para a vida e ama a vida, não consegue suportar a morte mesmo que tenha que conformar-se com ela e conviver com ela, pelo simples fato que nada pode contra ela. É a última palavra da existência humana e a última diante da qual não podemos retrucar, porque é definitiva. O fim da duração da existência sim, pode ser compreendido e aceito, mas a morte não! Para Marta, para os Judeus que «choravam com ela» -diz o Evangelho- a morte era o fim de tudo, fim do sentido da existência. A única esperança que se tinha era de que alguém permanecesse vivo na memória dos descendentes, mas uma vez descido ao Ades (Sheol) tudo estaria terminado. É verdade que alguns pensavam numa utópica ressurreição, mas essa idéia era tão vaga que aos judeus ortodoxos parecia uma verdadeira heresia (veja-se a discussão entre Fariseus e Saduceus em At.23,6ss).

 

Segundo a crença popular, a alma do falecido permanecia vagando três dias depois da morte e por isso os ritos fúnebres se estendiam por uma semana. Isto justifica o grande número de judeus provindos de Jerusalém que estavam na casa de Lázaro. Ora, no coração de Marta não havia mais esperança, apenas uma profunda decepção porque Jesus chegou no “quarto dia”, o dia em que a alma já não tem mais volta, já está nas mãos do “nada”. Também em Marta a ressurreição não passava de uma vaga expectativa: «sei que ressuscitará...no ultimo dia»; mesmo esta sua afirmação não parece expressar muita convicção, afinal, a possibilidade era tão distante... Mas como pensar e dizer que tudo de fato estava terminado?

 

Para nós é muito difícil compreender o drama de uma pessoa que excluiu o divino da sua vida; mas, garanto que é realmente terrível ver o olhar de alguém que sabe que aquele será o seu último momento!

 

Todo esse trecho do Evangelho deixa transparecer o questionamento sobre a morte, não apenas física. Até os judeus quando «Jesus chorou» se admiraram dizendo: «veja como o amava...» deixando entender: “então porque agiu assim?” Porque não fez nada? Num versículo que omitimos na leitura encontramos algo ainda mais questionador, Jesus disse aos discípulos: «Lázaro morreu; e por vossa causa me alegro de que eu não estivesse lá»; como é possível? Jesus se alegra porque não estava ali, em Betânia e Lázaro morreu...!   

 

Enfim, no início da belíssima história de Lázaro existe um sentimento generalizado de incompreensão, incompreensão sobre o agir de Deus, sobre os Seus métodos, sobre os Seus critérios. Diante do modo de agir de Deus podemos sempre ter duas reações: o afastamento ou a fé. Quando pretendemos que Deus se comporte conforme nós faríamos, mesmo que em “bem”, no fundo pretendemos reduzir Deus a nós mesmos e isto nos afasta ainda mais Dele porque «Deus é Deus e não homem» dizia o profeta Oséias (Os. 11,9). A história, porém continua, não termina com um questionamento sem respostas, porque Deus nunca deixa uma pessoa sem resposta, a não ser que esta “pretenda” uma resposta (cfr. Mc.11,33). O diálogo com Marta é o exemplo de como a fé de um discípulo se torna madura. Primeiro vêm as dificuldades, até as dúvidas sobre Deus, mas de algum modo Marta conseguiu não apagar definitivamente a confiança em Jesus colocada tão profundamente à prova. A fé dela ainda não era madura, ficava presa à presença física de Jesus, ao seu poder, à sua intercessão. Jesus quis conduzi-la a uma fé que apenas se entrega, sem alguma expectativa: na plena liberdade de confiar. Ele quis fazer o mesmo com os discípulos: se tivesse curado Lázaro sem deixa-lo morrer, eles teriam apenas participado de uma das tantas curas, não teriam amadurecido na fé, que deve ser radical, livre de qualquer certeza, apenas pura confiança, como havia feito André quando da multiplicação dos pães. Porém aqui o desafio era bem maior!

 

Às inúmeras perguntas de todos, Jesus responde apenas com uma pergunta a Marta, protótipo do discípulo fiel: «Eu sou a ressurreição e a vida.... você crê nisto?». Marta dá a resposta do Batizado: «Sim, eu creio», sem “mas”, sem “porém” sem reserva alguma. “Eu creio” e nada mais, apenas “confio e sei que a história que vejo não é apenas a história que vejo”; “não sei como, mas, mesmo que tudo diga o contrário, mesmo que tenham passado quatro dias... eu, teimosamente, confio”. Esta é a vida para Jesus, a vida é crer, é alegrar-se por crer não obstante tudo, é dar crédito à bondade e fidelidade do Pai, sabendo que a história Dele não é apenas a parte da história que nós vemos.

 

Os quatro títulos com os quais Marta indica o que pensa de Jesus são propriamente títulos que os recém-batizados davam a Jesus: “Senhor”, “Cristo”, “Filho de Deus”, “Aquele que devia vir”.  Estes quatro títulos representam a fé madura que não precisa mais de ver a cura, não precisa mais de uma comprovação, apenas se entrega.

 

E Jesus respondeu por aquilo que Ele é: se Ele é a vida de Marta, então será também a Ressurreição do irmão. Se Ele é a nossa vida, será também a ressurreição do nosso irmão e da nossa existência. A morte não existe perante a vida. Jesus “chama” Lázaro do seu túmulo de morte assim como chama cada pessoa para a vida, mesmo que esta esteja “no quarto dia”. A ressurreição de Lázaro (que propriamente não podemos chamar “ressurreição” porque Lázaro apenas voltou a viver, mas morreu novamente) é um sinal, o sétimo sinal que Jesus deu para revelar definitivamente tudo sobre o Pai e sobre si. No episódio anterior, o do cego de nascença Jesus deu o sexto sinal, que corresponde ao dia em que, na criação, Deus fez o homem, um homem que ainda não vê plenamente a não ser que seja iluminado por Jesus. No último sinal, o sétimo, temos esclarecido o sentido último da criação, da história do homem, do “repouso” de Deus que é o homem plenamente inserido na vida divina, para sempre. Jesus ressuscitado, trará consigo no íntimo da Trindade (cfr. Col.3), a dimensão humana que nos faz ser o que somos.  

 

Um bom domingo a todos.

Pe. Carlo

 


Postado em: 08/04/2011 as 15:21:49





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