Evangelho Comentado por Pe. Carlo Battistoni - Centro Bíblico Regnum Dei

 São Pedro e São Paulo


01 de julho de 2012



   

«Tendo chegado à região de Cesaréia de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos: “Quem dizem por aí as pessoas que é o Filho do homem?”. Responderam: “Umas dizem que é João Batista: outras que é Elias; outras, enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então lhes perguntou: “E vós mesmos, quem dizeis que eu sou?”. Simão Pedro interveio e respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus retomou a palavra e disse: “Bom por ti, Simão filho de Jona, pois não foram a carne e o sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus! Pois, eu também te digo: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças diabólicas não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do reino dos céus: Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”» (Mt. 16,13-19).

 


 

A festa de hoje é a celebração da unidade na diversidade. Pedro e Paulo, dois personagens, duas histórias completamente diferentes, dois encontros com Jesus redondamente diversos que terminaram do mesmo modo, em Roma, cada um dando a própria vida para Aquele que lhes fez sentir o Seu amor de um modo único.

 

O que uniu duas pessoas tão distantes por cultura, história, convicções? O que foi que os conduziu a fazer as mesmas escolhas de vida? Por que, pontos de vista tão desiguais não se transformaram em competição, em afirmação da própria posição, em “incompatibilidade”?

 

Não creio que venha aqui o caso de relembrar as histórias de Pedro e Paulo, bem conhecidas por todos. No entanto permito-me pousar a atenção sobre alguns pormenores de suas vidas.

 

Pedro era cidadão da Galileia, região bastante suspeita para o regime religioso–político da época. Seu tecido étnico era heterogêneo, com tendências separatistas que não se integravam com o sistema. Pedro fazia parte deste povo; era um cidadão comum, com sua família, sua estabilidade econômica, sua pequena vida de aldeia à margem do lago de Genezaré. Como muitos conterrâneos, provavelmente Pedro também seguiu Jesus vislumbrando nele o “esperado”, o líder que restauraria Israel. Qual fosse o limite entre a dimensão religiosa e política não está claro, mas certo é que no coração do todo Galileu estava presente a expectativa de ver em Jesus o libertador poderoso, o profeta sob o comando do qual definitivamente Israel poderia afirmar sua independência.

 

Sem pedir permissão, um dia Jesus entrou a fazer parte da vida desse homem. Era um dia como tantos outros. Naquele dia Jesus rompia os limites da vida de Pedro e o projetava num mundo infinitamente mais amplo do que os horizontes daquelas colinas da Galileia.  Os Evangelhos nos recordam a decisão que Pedro tomou, uma decisão que o acompanharia ao longo da sua vida. Foi uma decisão que precisou ser repetida várias vezes ao longo da convivência com Jesus, especialmente quando se verificavam fatos e situações desafiadoras, diante das quais se apresentava como sempre atual a possibilidade de largar tudo e voltar à vida de antes, ao seu barco. Alguns destes momentos dramáticos nos são lembrados pelo apóstolo João: «À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: “Porventura, quereis também vós retirar-vos?” Respondeu-lhe Simão Pedro: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna”» (Jo. 6,68).  O Evangelho de hoje também nos traz o eco de um destes momentos extremamente delicado na convivência entre Jesus e os doze. O Evangelho não nos conta o que está por trás do fato que Jesus, pela primeira e única vez, interpelou os que o acompanhavam, questionando sobre o que eles sentiam. 

 

Nestas, como em outras situações, Pedro fez memória, reviveu o momento inicial de quando Jesus ingressou na sua vida. Reavivou o ímpeto instintivo do coração que não mede, quando vê apenas Jesus como motivo central da própria vida. Pedro, homem que não mede, tanto no erro quanto no impulso de amor. Que chora e que recomeça sempre; capaz de aplicar em sua vida aquilo que tinha aprendido ao sair do limite de suas colinas e lagoas, para deixar-se levar sem condições, como nos recorda o Evangelho de João ao narrar o último encontro entre Pedro e seu amado Jesus que lhe disse: «Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há de atar o cinto e levar para onde não pensavas de ir» (Jo. 21,18). A memória daquele momento dará a Pedro a força de continuar, sempre, até o fim. 

 

Foi assim que entre Jesus e Pedro se estabeleceu um profundo laço de compreensão recíproca, que ia além da razão, além dos sentimentos primários... O trecho que acabamos de ler é uma das imagens mais evidentes da relação entre Pedro e Jesus. Foi assim que, quando o Senhor questionou a todos sobre o que tinham entendido em relação aos primeiros anos de vida em comum, diante das respostas vagas e descomprometidas dos outros discípulos que se limitaram a relatar as opiniões de outros («alguns acham que... outros acham que...»), Pedro antecipou a todos, quase desejando impedir que fosse desfigurada a imagem do “seu” Senhor. O fez com palavras muito firmes, embora ele mesmo não tivesse ainda claro o significado pleno daquilo que estava dizendo: «Tu és o Cristo!». Foi um dos momentos mais fortes da vida de Pedro, a ponto de que recebeu um novo nome. O nome que havia recebido dos pais era “Simão”, nome que vem do verbo hebraico “sh'ma” =(escutar), com o significado de “dom de Deus que escutou a oração ; mas ele recebeu de Jesus um nome novo, o mesmo nome com o qual apenas Deus era chamado: “rocha”, “pedra” (por exemplo: «Engrandecei o nosso Deus. Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas»; Dt. 32,4). A mudança de nome indica a qualidade do relacionamento entre Pedro e Jesus, uma confiança recíproca tão grande que, por absurdo que pareça a qualquer julgamento humano, o Maior obedece ao menor: «O que você, Pedro, ligar na terra, eu -Jesus- vou ligar no “céu”...!». É realmente o mistério do agir divino! Mistério que nos faz vislumbrar a qualidade da relação entre os dois. E... sobre isso Jesus construiu a “sua” Igreja, bem diferente de outras formas associativas religiosas.

 

            Ao lado dele encontramos Paulo. Um fariseu zeloso da Palavra de Jahvé, formado na melhor escola rabínica da época, a escola de Gamaliel. Toda a sua vida fora dada para a “Lei”, na qual tinha toda certeza de encontrar-se com Deus. Era um homem erudito, que falava as línguas mais importantes da época e sentia-se à vontade com as culturas dominantes, seus costumes, poesias, técnicas de oratória etc.

 

Era um personagem seguro do caminho que estava trilhando para se encontrar com seu Deus...; afinal ele seguis com extrema fidelidade aquilo que Deus havia proposto na Torah...! Sim, foi assim até o dia em que foi Deus que quis se encontrar com ele. Tudo mudou. Mudou o ponto de vista. Como de repente, um encontro lhe fez entender que um homem não pode pretender de conquistar o interior de Deus, mesmo seguindo retamente os preceitos... e assim, decidiu deixar-se conquistar por Deus. Foi o dia em que algo começou a desestabilizar as suas convicções. Certamente isso não se deu apenas no episódio de Damasco que todos nós conhecemos, aliás, esse foi somente a consequência de ter aprendido a conhecer a linguagem de Deus através de um cristão que morreu como morreu Jesus.

 

Lucas, companheiro de Paulo em suas viagens, discretamente nos deu uma indicação daquilo que começou a fazer desmoronar as certezas de Paulo: um homem que morria perdoando, do mesmo modo que fizera aquele Jesus de Nazaré que Paulo havia aprendido a combater. O autor de Atos dos Apóstolos testemunha o acontecido dizendo que «As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo» (At. 7,58) enquanto apedrejavam Estevão.

 

A inversão de valores operada por Jesus no coração de Paulo o levará também a ultrapassar os limites de suas convicções. Daquele dia em diante o seu coração aprendeu que a “lei”, a regra, o “mínimo suficiente” não salva ninguém. Ao contrário, Paulo é tão forte contra a mentalidade minimalista que a lei provoca naquele se prende à lei, a ponto de  adjetivá-la de “maldita” (Gal. 3,13). A Lei tem apenas o poder de indicar o certo e errado, sem ter a capacidade de gerar em nós aquilo que realmente salva, que é o amor gratuito.  Daquele dia em diante o intrépido e seguro fariseu, descobriu-se como aquele que está no «último lugar» (1Cor. 4,9), «indigno de ser chamado apóstolo» (1Cor 15,9). A presunção de se salvar com as próprias forças deu lugar àquele estado de ânimo que Paulo chamava «graça», isto é a atitude de gratidão por ter sido objeto de um amor não merecido. A «graça», esta força movida pelo desejo de retribuir com amor ao amor recebido, será a força desse grande homem de Deus.

 

Daquele dia em diante a segurança que Paulo tinha em si mesmo, será substituída pela humildade; um humildade capaz de pedir a permissão de pregar o Evangelho a um pescador, “ignorante” (Lucas usa uma expressão que sugere que não soubesse ler e escrever: agrammatoi -At. 4,13). Ele fez isso antes de se aventurar na pregação do Evangelho a fim de não correr o risco de ter trabalhado «em vão» (Gal. 2,2) isto é, por sua própria conta, sem a harmonia necessária ao anúncio do Evangelho. Paulo aprendeu a se gloriar de seus limites, de suas fraquezas para que fosse evidente a todos o tesouro que carregava em seu “vaso de barro” (2Cor. 4,7). Paulo se sentiu salvo, se sentiu objeto da gratuita misericórdia de Deus e que quis entregar sua vida a fim de que seus irmãos, judeus e estrangeiros, fizessem a mesma experiência de amor gratuito. Amor que não pode ser alcançado pelas regras, pelas normas e leis, porquanto justas que forem.

 

Eis: dois homens, duas histórias, o mesmo fim.

 

Um e outro foram capazes de olhar o mundo com os olhos de Deus; foram capazes de esquecer as diferentes opiniões sobre um assunto ou outro (o livro de Atos nos narra alguns destes momentos e a dinâmica com a qual foram vividos) porque em ambos, Jesus ocupava o centro do coração. Um e outro foram projetados fora do limite de seus exíguos mundos para serem parte de algo maior que desconheciam, mas que os fascinava.

 

O fato de sentirem-se chamados, a humildade oriunda da consciência da vocação, lhes deu a força de perder seu “eu”, naquela belíssima experiência que Paulo assim descreve: «Não sou mais eu que vivo. É Cristo que vive em mim!» (Gal. 2,20). 

 

 Quando olhamos somente a Jesus, assim como ele se apresenta e não filtrado pelos preconceitos que às vezes poluem a mente, então a unidade é gerada, como uma sintonia, uma afinidade que «não nasce da carne nem da vontade, mas de Deus»


...e sobre esta pedra Jesus edifica sempre a sua Igreja. 


Postado em: 28/06/2012 as 18:30:58





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